sexta-feira, 3 de dezembro de 2010



No mais profundo dos olhares
Chovia. Ela via as nuvens chorar da janela do seu quarto. Deslizavam em vidro as lamurias do tempo, de um tempo outrora radiante, de um tempo triste como Marta. Toda a paisagem se revelava infeliz, silenciosa e serena. O vento bailava com as últimas folhas deixadas pelas árvores, amarelas, laranjas, castanhas, vermelhas. Seus olhos azuis como o mar, enormes e atentos, fitavam um ninho, no alto de um pinheiro robusto e esverdeado. O carinho materno estabelecido entre a ave e as suas crias era tocante e comovente e Marta chorou, chorou por todas as vezes que sentiu falta do afecto da sua mãe, das mãos delicadas que passassem pelo seu rosto em momentos de angústia, o sorriso em momentos de glória, sentia falta das histórias que se lêem à noite, da harmonia das letras da palavra mãe, o apoio, tudo o que Marta não teve. De súbito, levantou-se, deitou-se na sua cama e num gesto quase impensado esfolheou um livro de Fernando Pessoa, escolheu ao acaso um dos muitos poemas que o enriqueciam:
“Eu amo tudo o que foi,
Tudo o que já não é,
A dor que já me não dói,
A antiga e errónea fé,
O ontem que dor deixou,
O que deixou alegria
Só porque foi, e voou
E hoje é já outro dia.”
Vagarosamente, cerrou as pálpebras, e no conforto da poesia adormeceu.
O Sol espreguiçava-se no majestoso céu azul, que velozmente se cobriu de nuvens, melancólicas, acabrunhadas, nostálgicas tornando o ambiente pesado. Marta acordou, deixou a água fria do chuveiro correr sobre a sua pele jovem, um arrepio envolveu-a, não era impassível como julgara. Dirigiu-se para a cozinha onde estava o seu pai e Rosarinho, uma fiel amiga que durante estes anos tinha desempenhado um papel quase de mãe.
-Sim, eu entendo. Mas como é que as acções da empresa não atingiram o valor? Estamos na época alta, no Natal Sr. Marques! - afirmou indignado Abílio.
-Sempre a trabalhar, pai. Até há hora das refeições! Bom dia Rosarinho. – proferiu Marta, num tom de voz firme no entanto ensonado.
-Agora não posso, não vês que estou ocupado? Desculpe, não estava a falar consigo, sim diga. – foi tudo o que Abílio disse, enquanto se dirigia para a porta.
-É sempre a mesma coisa. – barafustou.
-Bom dia, menina, eu levo-a à escola, o seu irmão saiu mais cedo. – informou.
O colégio, onde Marta e Tomás estudavam, era grande, repleto de jovens de variadas idades, gostos, raças, tamanhos, a diferença era apenas uma característica, havendo assim uma escola mais unida e justa. Hoje, era o último dia de aulas antes das tão desejadas férias de Natal, Marta era uma excelente aluna, tinha uma rápida capacidade de cálculo e uma sensibilidade rara para a escrita, enaltecida pela sua professora, que a tem em elevada estima. Os seus textos eram publicados em revistas e jornais, com apenas quinze anos já tinha uma vasta obra literária. A manhã tinha sido semelhante a tantas outras, exceptuando a visível euforia estampada no rosto dos alunos. Ao longo da manhã, a paisagem alterou-se, cobriu-se de um branco imaculado e puro vindo do céu, essa tonalidade apaziguadora remetia para um silêncio doce de reflexão. O tempo prometia sorrisos, era o primeiro dia de Neve desse Inverno e a escola fechou de tarde. À saída Marta é surpreendida por Samuel.
-Espera Marta. – balbuciou Samuel nervoso.
-Diz. Passa-se alguma coisa? – respondeu Marta, num tom tanto preocupado como embaraçado.
-Não, não é bem isso. Hum, vem passear comigo. – pediu-lhe Samuel com os olhos aflitos e luminosos.
Parou. O seu coração parou, seguidamente bateu à velocidade da luz, fundiram-se os sonhos e tornou-se realidade o que ela tantas vezes sonhara.
-Claro. – corou.
-Óptimo – sorriu Samuel.
Passearam-se pelas ruas brancas, onde se sentia no ar o perfume das castanhas assadas, fazia-se sentir o frio e num acto de cavalheirismo Samuel deu-lhe o seu casaco. Caminharam junto ao rio, observaram a natureza, a graciosidade das árvores despidas, o rio frígido e estático, o céu taciturno e o vento ríspido. De mãos dadas, declarando o carinho voavam na inocência de um jovem e encantador amor. O rosto de Marta reflectia a réstia de luz que o Sol abandonara. Quando os seus olhares se encontraram, deixaram-se cair nos braços um do outro, por breves instantes que pareceram horas, os seus lábios encarnados e carnudos aliaram-se para profetizar o amor.
Em Vésperas de Natal, a casa estava numa agitação. O espírito natalício envolvia toda a família, ornamentaram a árvore de Natal, com as habituais decorações: sinos doirados que reluziam com as luzes vermelhas, amarelas, azuis; fitas das mais variadas cores e uma estrela no topo da árvore, imponente e sublime. No seu sopé, armoniosamente ordenadas permaneciam todas as figuras pertencentes ao presépio. No centro da mesa havia um arranjo, com flores apanhadas naquela manhã por Rosarinho, delicadamente envolvidas por um laço de cetim da cor dos mais luzidios rubis. Na lareira, labaredas de fogo, cores do pôr-do-sol, alaranjadas, avermelhadas, amareladas, rodopiavam ritmadamente. Um aroma doce percorria toda a sala, na cozinha Marta e Rosarinho, faziam diferentes receitas e deliciavam-se com o aspecto dos bolos, das rabanadas, filhós, tartes, arroz doce, aletria, bolo-rei com perfume a canela e açúcar. Tomás entretinha-se a pintar uma tela, pincelava desenhos abstractos representativos do seu estado de espírito. O seu pai avisou que regressaria tarde pois tinha uma reunião de negócios.
Precipitadamente, Marta fixou o calendário pendurado na porta do seu quarto e percebeu que era noite de Natal. Apressadamente vestiu a primeira roupa que lhe passou pelas mãos, no seu interior sentia-se realmente feliz. Esta época era a sua favorita, a sua família reunia-se para celebrar, a união, o afecto e o carinho.
Numa chegada incessante de pessoas, observava-se o sorriso terno da Tia Camila, que com os seus longos cabelos acastanhados, os seus traços fortes e os olhos verdes como a mais verde alga de um vasto oceano, iluminava de sincera alegria toda a sala, o tio Fernando portador de cabelos grisalhos que vibram ao vento, sorriso acolhedor e olhar altivo, entre muitos outros, depressa a sala ficou repleta de feições, de vozes, de opiniões, de alegria. Ruidosamente as crianças mais pequenas espalharam a sua euforia, havia uma diversão estampada nos seus ainda inocentes rostos. Melodiosamente ouve-se o tilintar dos copos, o tom dos risos, os murmúrios, as vozes, degustava-se o verdadeiro espírito dos sabores das palavras. Como já era costume, o seu pai chegou muito atrasado porém conseguiu facilmente integrar-se nas conversas até aí desenvolvidas. Rosarinho havia-se esmerado no jantar, todos pareciam adorar o cabrito com rosmaninho, mel e nozes e o bacalhau regado com fios de azeite, no centro da mesa velas ardiam e iluminavam este retrato familiar.
Nevava, flocos imaculados deslizavam do céu e Marta saiu para o jardim, o seu rosto angelical, quase de porcelana reflectia o frio dessa noite, ouviram-se passos, olhou sobre os seus ombros, onde os seus caracóis pousavam em cascata e reparou que Samuel sorria apaixonado. Marta correu para os seus braços e abraçaram-se demoradamente.
-Estou tão feliz por te ver aqui. – afirmou sinceramente Marta.
-Senti que só iria ser um Natal perfeito se sentisse a luz do teu sorriso.
Abílio espreitava toda aquela demonstração de afecto e relembrou todos os momentos passados com a mãe de Marta, o florescer de uma paixão, foi nesse preciso momento que percebeu que se refugiara no trabalho e se esquecera que os seus filhos tinham crescido, que o tempo não parou e que ainda há Futuro. Prometeu a si mesmo mudar a sua atitude e fortalecer o amor para com os seus filhos.
Sob os raios da lua, o majestoso céu azul, reunido o encanto e a magia sussurraram-se palavras ao som aprazível das badaladas ténues do alto da torre da igreja.
-Feliz Natal Marta.
-Feliz Natal Samuel.
Pairaram certezas, alimentaram-se esperanças, multiplicaram-se sorrisos numa noite resplandecente de Natal.

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